Demência mental, em estado avançado é a doença ou "degenerença" que a minha Avó tem, e que às vezes eu sinto ter, porque quanto mais tempo passo com ela mais difícil é sentir-me "normal".
Especialmente o meu pai, que passa por dramas diários em situações banais que se tornam em verdadeiras batalhas de uma guerra que ninguém sairá vencedor.
É triste, muito triste e frustrante, ver alguém que já teve uma cabeça brutal, lúcida e perspicaz, tornar-se em alguém que mal se lembra das coisas, que baralha o passado com o presente, que apaga episódios mundanos e que até chegou a não nos reconhecer numa certa data.
Um dos maiores medos que tenho, é que a minha Avó deixe de se lembrar que o meu Avô faleceu. Medo porque, dizer-lhe que ele faleceu no dia 29 de Dezembro, foi um dia que não quero voltar a repetir. Medo, porque se ela se esquecer, vou ter de lhe dizer todos os dias e ver estampado no seu rosto novamente a dor que vi naquele dia, depois de 63 anos juntos?
A minha Avó está numa situação em que não consegue gerir-se nem gerir a sua vida sozinha, mas que teima em provar diariamente que é capaz de o fazer. Mas não é. Não vê bem e não consegue fazer uma chamada. Se for preciso chamar o 112 ou ligar para um de nós por alguma situação urgente, ou grave, ou complicada, como é que ela faz? Se for preciso um dia chamar alguém porque o meu tio ficou doente ou teve uma crise ou lhe pára a respiração, como é que ela faz se não consegue marcar um número de telefone? "Faço reanimação", disse ela. Isto é de loucos.
De loucos é o dia-a-dia com uma pessoa com esta doença (vou chamar-lhe doença).
Andou duas semanas a dizer ao meu pai para levar o canário lá de casa, que lhe dava muito trabalho cuidar dele. Todos os dias insistia com ele para que ele levasse o passarinho. O meu pai até lhe dizia que ele lhe fazia companhia, numa de a manter o mais perto de uma vida activa possível a ver se com a obrigação de tomar conta dele, que a doença degenere mais lentamente. Até ao dia em que ela lhe disse, "Como não queres levar o passarinho contigo já o ofereci ao amigo do teu Avô que lhe traz as ervinhas, e assim ele fica com ele." "Ai sim Mãezinha? Então eu fico com ele."
E a uma 6ªf ele levou o canário para casa. Sábado volta a casa dela, encontra-a na rua, e ela fez um escândalo como nunca visto. Gritou com ele, estava zangada, muito zangada! "Como é que foste capaz de me levar o passarinho? Quem te deu autorização para o levares contigo? Ninguém te disse para levares o passarinho embora daqui, ele era a minha companhia!", disse ela.
Isto é de loucos... mas é real e é diário. Enquanto tiveram na rua e foram ao café, ela continuou com as acusações. Zangadíssima com ele! Foram para casa, e com a presença do meu tio, é que o "mistério" se desvendou, visto que o meu pai lhe disse várias vezes que foi ela que lhe pediu para o levar. "L., diz à Mãezinha o que ela disse sobre o passarinho, por favor." "A Mãezinha disse para tu levares o passarinho contigo." Só aí é que ela, embora desconfiada, se acalmou.
O drama mais recente foi ter-se esquecido do código do multibanco da conta dela. É a única pessoa com acesso àquela conta e recusa-se a deixá-la ser gerida seja por quem for, porque se considera saudável e não tem a mínima noção da sua condição. Porque não se lembra das coisas que se esquece. (Parece-me óbvio...).
Por sorte o meu pai viu o código dela uma vez que foram ao multibanco juntos senão já não havia qualquer hipótese, o cartão seria comido e teriam de ir ao banco tratar de tudo, pedir novo cartão ou novo código, e pelos vistos isto já tinha acontecido antes e o bando disse que da próxima vez que não lhe davam mais cartão nenhum.
O meu pai tentou que ela se lembrasse, e fizesse um esforço, e ajudou, mas nada. O código que se lembrava era do pin do telemóvel. Por fim disse-lhe que o Paizinho lhe tinha dado o código dela caso isto acontecesse. Escreveu num papel e disse para ela guardar na mesa de cabeceira. Só que ela é tão teimosa que mesmo com a insistência dele, guardou-o na carteira junto ao cartão! Então ele tirou-lhe o papel e rasgou-me em pedacinhos. Ficou tão lixada com ele! Estou mesmo a vê-la com os olhos vermelhos a deitar bolas de fogo. E não estou a exagerar.
Mais logo veio buscar-me ao trabalho e fomos para casa.
No dia seguinte à noite, ligou-me a dizer que tinha falado com ela há minutos... "Então Mãezinha, já se lembra do código do multibanco?", "Claro que sim!", "Então qual é?", "Achas que te vou dizer?".
E pronto, nem se lembrava do drama do dia anterior, nada de nada. Foi como se o dia tivesse sido apagado....
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