Ontem soube que um dos meus miúdos, a quem dou aulas, teve um percurso complicado.. aliás, quase todas as crianças de ambas as escolas onde lecciono tiveram, ou têm vidas muito difíceis.Mas como eu estava a dizer, aquele rapaz era muito pequeno, quando um incêndio na barraca onde vivia foi de tal forma intenso, que a mãe apenas teve tempo de o salvar a ele. A irmã morreu queimada. Anos mais tarde, o rapaz teve um cancro, portanto só por si, pela doença e pela idade dele, podem imaginar a dificuldade em sobreviver.
Eu sei que quando a irmã morreu no incêndio ele era demasiado novo para se lembrar, mas as palavras não ditas.. ou o assunto proibido.. é sempre muito difícil de aceitar "e se eu tivesse salvo a irmã em vez dele?". Bem, não imagino o que possa passar pela cabeça daquela família, nem pela mãe que esteve presente, nem pelo rapaz, que não sei até que ponto ele está consciente da situação.
Contei esta história a uma amiga, psicóloga, que apenas me disse :"não sei como consegues lidar com essas realidades, é preciso ter imensa força..", e eu lembro-me de lhe dizer: "sabes, acho que já me habituei."
Sim, cada vez mais é habitual conhecer estas histórias destas crianças, e embora me sinta extremamente sensibilizada ao conhecer estas realidades, sinto que são cada vez mais a minha realidade também, já que faço parte da vida delas e elas da minha. Começo a habituar-me a lidar com o horrível e a tratá-lo por "tu". Só quero fazer o meu melhor para que, pelo menos enquanto estão comigo, se abstraiam da sua dor.
1 comentário:
às vezes venho aqui "ler-te" e sabe bem. Mesmo quando o assunto é desta natureza, adoro a maneira como são abordados. bjs. Graça
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