sábado, 29 de dezembro de 2012

A última vez...

Ontem levámos a minha Avó ao hospital.

Na recepção encontrámos um amigo do meu Avô, que nos disse que não conseguiu acordá-lo nem falar com ele. Estranhei. "É preciso acordá-lo. Ontem levámos meia hora só para o conseguir acordar.", disse eu. "Pois, mas ainda estive lá uns bons 40 minutos e não consegui.".

Subimos. Eu, o meu pai e a minha Avó. Como ela não pode ir sem acompanhamento nem pode ser deixada sozinha, pedimos para sermos 3 visitas em vez de 2.

Enfermaria IV, cama 37. Ele dormia. A respiração estava um pouco alterada. Chamámo-lo.. nada, não acordou. Outra vez.. e outra.. e mais outra. E ele não acordou. Falei com um enfermeiro que me disse não saber se ele estava com medicação para dormir e encaminhou-me para a sala dos médicos, que embora estivessem fora do horário de atendimento, poderiam facultar-nos informações. Bati à porta, perguntei pela médica dele e ela apareceu.

Eu - "O meu Avô está medicado para dormir? Não o conseguimos acordar..."
Ela - "Sim. Está com morfina. Estava com tantas dores que já não era possível mantê-lo acordado. Agora vai ser assim até ao fim..."
Eu - "Quanto tempo acha..."
Ela - "A qualquer momento. Provavelmente no fim de semana."

As lágrimas encheram-me os olhos enquanto falava com ela. Dificilmente ouvi a minha voz. O nó na garganta, o sapo entalado. O sapo que tenho entalado é do tamanho de um elefante.

Proeza é controlar-me, tentar não me desmanchar a chorar porque ainda a minha Avó estava a ser preparada no processo de aceitação e ela ainda negava. Disse tantas vezes que o queria era levar para casa...

Ele reagiu. Nunca acordou, mas quando falávamos com ele, reagia às vozes e gemia. Quando não o fazíamos ele não fazia esses sons. Gemia como se fosse um suspiro, uma tentativa de falar connosco, de verbalizar algo, mas que o corpo era um obstáculo e não o deixava fazê-lo. Senti isso...

Abracei-o, dei-lhe um monte de beijos, falei com ele, disse-lhe que o amo, disse-lhe que sei que ele também me ama. Disse-lhe que sabia que ele estava a tentar falar comigo, connosco, e que voltaríamos lá.

Despedi-me dele. E com um aperto no peito fomos embora, sem vontade, não satisfeita.

Preparámos a minha Avó o mais possível para o pior. Ela chorava. Disse que não queria que Deus o levasse. E mais do mesmo. Em casa foi falar como meu tio. "Eu, sozinho com a Mãezinha? Está na hora de me pirar daqui.", "Amanhã devia ir ao hospital despedir-me do Paizinho. Mas se eu vou lá eles apanham-me! Eles prendem-me!" Entre outras coisas...

O dia não acabou aqui.

O meu pai disse-me que sentiu que foi a última vez que o viu com vida.

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