A primeira memória que tenho dele, assim sem pensar, acompanhou-me a vida toda.
Eu tinha 3 anos. Íamos de mão dada, de passo meio acelerado, talvez por eu ser pequena. Descemos a calçada e eu perguntei onde íamos. Ele respondeu que estavamos a ir para o hospital, porque os meus pais estavam lá, porque o meu irmão nasceu. Nunca me largou da mão, nunca parou de responder às minhas perguntas e de conversar comigo. Tinha uma paciência infinita. Característica que tive a sorte de ter em ambos os Avôs que tive.
Sempre calmo, sempre bem disposto, ia comigo e a imagem que tenho dele nas minhas memórias mais antigas, é com a farda militar, mas sei que ele não a usava nesse dia.
É impossível esquecer-me da forma como ele reagia sempre que me via. Exclamava de alegria com um sorriso enorme. Sempre. "Olha a Marta!". Foi a mesma entoação que ouvi dele, no hospital, nos poucos momentos em que me reconheceu, embora balbuciado.
Não tenho dormido grande coisa nas últimas semanas, e a noite passada não foi excepção. Senti-me adormecer perto das 7h da manhã... mas algo me acordou às 8h, uma hora depois. Senti um baque emocional, como se me tivessem abanado várias vezes, não fisicamente, mas algo fez a minha consciência despertar e abri os olhos. E acordei tão desperta como se tivesse tomado 2 red bull de penalty.
Estive com ele. Hoje estive com ele. O meu Avô veio ter comigo e sentou-se na minha cama. Eu senti-o. Senti-o tão perto! Oque senti materializou-se: vi-o. Mais magro, uns 30 anos mais novo. Bigode aparado, como sempre, perfeito. O mesmo cabelo branco, o mesmo bigode branco. Estava calmo e ficou ali, perto de mim, a sentir a minha presença e eu a dele. Ele sabia que eu o via.Vi-o. Não como se olha para uma pessoa de carne e osso. Era uma imagem dele, meio "transparente". Através dele dava para ver o meu quarto por trás. Mas vi-o. E foi confuso. Ele não falou, não verbalmente. Ouvi na minha cabeça o que ele me quis transmitir. Que já não tinha dores, que estava calmo, sereno. Para eu ser forte que os próximos dias vão ser duros. Muita força para eu apoiar toda a gente. Fiquei muito calma. Embora confusa.. Será que era mesmo ele? Não estaria a imaginar coisas? Sentir a sua presença senti sem qualquer ponta de dúvida, mas será que o vi mesmo? Não. Era mesmo ele e esteve ali comigo.
O telefone tocou. Era a minha mãe. Eu sabia. Nesse momento percebi com toda a clareza que ele esteve comigo pouco antes, e que o vi. Era ele a dar-me a notícia. "Ligaram-nos do hospital..." "Sim, já sei..".
Os meus pais ligaram para a família, amigos, e estivemos a despacharmo-nos para ir ao hospital como nos mandaram, por telefone. Entre o virem-me buscar e não chegarem, liguei para o meu pai e perguntei se demoravam. Ele disse-me:
Ele - "Tu sabes que a tua Avó ligou para a Tia A. (única irmã viva do meu Avô) hoje de manhã e disse-lhe o teu Avô morreu? Nós ainda nem falámos com ela. Como é que ela pode ter feito isso?"
Eu - "Sim.. normal pai, ele hoje esteve comigo, senti a presença dele no meu quarto e vi-o."
Ele - "Ok." (E tenho quase a certeza que pensou "tirem-me deste filme" mas não o disse.)
Vieram buscar-me. Ficámos 1h à espera no hospital para saber o que nos queriam. Queriam dar-nos a notícia pessoalmente. "Mas disseram-nos por telefone.." "Essas notícias nunca são dadas por telefone, não era suposto."
Fomos para casa da minha Avó. Dar-lhe a notícia foi um momento difícil e extramente doloroso de se viver e assistir.
Perguntámos se falou com a Tia A. e ela disse que apenas na véspera. Estranho.
Veio o senhor da agência funerária, que foi impecável...
O velório e o funeral são amanhã. Um a seguir ao outro. Faleceu a um sábado, e ao fim de semana Portugal pára. Não há médicos de serviço (ou os que há são os que foram entalados), o serviço militar que trata das honras quando morre um oficial também não funcionam... o velório não pôde ser hoje porque é sábado e há horas para se resolver as situações. Logo terá que ser amanhã. E sem honras militares, que era o que eu mais queria que ele tivesse, porque merecia. Recebeu várias medalhas e é a de honra que lhe dava essa possibilidade, pois nem todos podem ter esta cerimónia. Só mesmo os honrados. E ele era um homem de honra.
Sem comentários:
Enviar um comentário