10h30 no hospital. Estava lá eu e o meu pai, para irmos reconhecer o corpo. O senhor da funerária chegou atrasado, porque a certidão de óbito ainda não estava passada e já tinha feito mais de 24h. Sem ela o corpo não podia ser libertado.
Nesse tempo de espera tive uma conversa com o meu pai. Gostei mesmo do que falei com ele. Tenho uma ligação muito forte com o meu pai. No dia em que ele me faltar o meu mundo desaba.
O meu Avô foi vestido, com a farda de cerimónia e fomos reconhecer o corpo. Depois seguimos para a capela mortuária.
Olhava para ele de vez em quando, fazia-lhe uma festa na cabeça. Eu e o meu pai pusemos-lhe o fio que ele tinha ao pescoço quando deu entrada no hospital e um terço, nas mãos dele. Estavam frias..
A família foi chegando, incluindo a minha tia inconveniente, que é como a chamo. É uma das irmãs da minha Avó, sendo que a outra é também inconveniente mas ainda usa o filtro. A outra não usa nada, tem a lingua colada ao cérebro. Bem, vieram os meus tios-avós todos, mais primos que nunca vi, a irmã do meu Avô que eu não conhecia, amigos dele, companheiros militares..
Vieram alguns amigos meus também, e soube-me bem ver algumas pessoas que foram. Devo ter gasto 3 ou 4 pacotes de lenços de papel durante o dia
e não chorei tanto quanto pensava que iria.
Abraços dei e recebi. Dos apertados, como eu gosto.
O padre fez uma cerimónia surreal. Parecia que estava pedrado! Oh meu Deus, disse coisas que eu só olhava para ele e pensava "what the fuck, que merda é esta que ele está para aqui a dizer?". Nem queria acreditar no que estava a ouvir. Senti-me em pleno século XIX e já nem conseguia repetir o que era suposto de tanta ridicularidade. E eu acredito em Deus! Tenho mais do que provas para mim, que ele existe. Não tenho dúvidas sequer. Agora... igreja... padres com uma mentalidade retrógada? Não, nem pensar.
Partimos para o cemitério e procedeu-se ao funeral. Foi difícil.
Em casa da minha Avó foi triste. Ela sente que há demasiadas pessoas "a mandar nela" e eu até a percebo, não tivesse um feitio a puxar para esse lado da família. Vê-se sem marido, sem o pilar dela, sem o amor da sua vida, e depois toda a gente a quer obrigar a comer, a tomar os medicamentos, a fazer tudo o que é suposto, mas que ela na sua dor, se recusa.
Fui para casa e a R. e o M. vieram buscar-me. Fomos jantar, distraí-me um bocadinho. Consegui rir-me durante uns momentos embora poucos. Não tenho disposição para nada.
Agora ainda vem o pior. Não é apenas a ausência dele, é cuidar do meu tio e da minha Avó. Eles não podem ficar sozinhos lá em casa.. e é ir tratar de tudo com o meu pai, para o apoiar o mais possível.
Têm sido meses, muitos dias, muitas horas diárias. Ver o meu Avô em sofrimento diário, as dores sem podermos fazer nada, as idas ao hospital, as operações, os internamentos, o declínio de um Homem com H grande. Ver uma pessoa de quem sou próxima, a desaparecer aos poucos foi das experiências mais duras, tristes, difíceis, frustrantes de ter. Não desejo a ninguém.
Adeus Avô, até um dia.
Têm sido meses, muitos dias, muitas horas diárias. Ver o meu Avô em sofrimento diário, as dores sem podermos fazer nada, as idas ao hospital, as operações, os internamentos, o declínio de um Homem com H grande. Ver uma pessoa de quem sou próxima, a desaparecer aos poucos foi das experiências mais duras, tristes, difíceis, frustrantes de ter. Não desejo a ninguém.
Adeus Avô, até um dia.
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