Não me permito entrar lá dentro sem descer às catacumbas e ver se o Professor Carlos anda por lá. Faz parte da minha rotina anual ir falar com ele "só para lhe dar um beijinho e dizer olá". Bati à porta e interrompi-lhe a aula: falar com ele era mais importante. Ele ficou contente, lembra-se sempre do meu nome, sempre. "Gostei muito de a ver Marta, tem de aparecer por cá para bebermos um café e falarmos um bocadinho." O Professor Carlos viu-me chorar, muito, quando soube do Roberto. E com toda a dor que ele próprio estava a sentir, disse-me algumas palavras de alento, força, e recomeço.
Marcou-me tudo, as suas aulas eram as melhores que já tive, a dupla com o Professor Roberto, a alegria com que ele vibrava por apenas estar vivo.
Até que Rob faleceu. Vai fazer 2 anos daqui a uns meses. Aliás, foi essa a principal razão pela qual comecei a escrever um blog. Este blog. Não conseguia exprimir o que sentia, não conseguia falar. Apenas chorava. Tinha de escrever.. nasceu "a marta diz".
Tenho a certeza que o Rob lê a Marta. E tenho a certeza que ele está por cá, que me visita de vez em quando e que me dá alento ao coração nos dias em que eu estou menos bem. Como fez nos últimos 2 dias.
Na faculdade e procurei a fotografia do professor Shrek, é um ritual familiar, que preenche um vazio momentâneo, que não me deixa esquecer tudo o que ele representava para mim. Não encontrei. Já não estavam lá. Tenho saudades da faculdade. Tenho saudades do riso dele, tenho saudades de eles nos chamar de "tótós" "engenheiros" "senhores" e de dizer que ele era gay. Mas que o lado gay dele era lésbico. Da forma como falava das mulheres, dos livros, dos filmes, de Fotografia e da vida. Dos filhos.. da esposa. Tenho saudades de olhar para o Porf. Carlos e ver uma pessoa completa, sem lhe faltar o seu outro "eu": o seu Roberto.
De vez em quando visito o blog do Rob, Bob, Roberto, tantos nomes. Visito só para ler algumas das mensagens que por lá nascem. Vai fazer 2 anos, e os amigos, a família e os alunos e colegas continuam a escrever as suas dedicatórias. As lágrimas tentam ocupar-me os olhos, mas não são lágrimas de tristreza, são de alegria. Alegria por ter conhecido uma pessoa tão completa, com uma alma tão desenvolvida e perfeita. Perfeita dentro dos seus defeitos. Coloco aqui um comentário lindo, de um amigo, que deixou para o Rob ler. Onde quer que esteja agora :)
"Manel said...
Bob,
Não consigo retomar o meu blog sem falar contigo. Aliás ainda estou para ver se consigo retomar. Eu sei. Vou tentar. Mas custa tanto. Obrigado pela força.
1001 comentários é a prova de que continuamos todos a vir cá. Foi tão difícil ir lá a casa... Foi tão pesado este início de Junho. Foi tão absurdo este ano que passou e que termina sempre no Verão. Já percebi que o meu ano vai sempre ser lectivo. Vou usar "a tua luz intensa e vermelha" sempre. Quase um lazer que concentra a luz do pôr do sol no monte da solteiras. Não percebo como é que isso pode ter acontecido. Não entendo a comunicação que ainda existe.
Chorei muito sozinho lá em casa a ler o que os teus alunos te escreveram... mas só espreitei o que se podia ler com as cartolinas enroladas. E mesmo isso já foi potente demais. Vai ser bom poder sentar-me todos os dias no sofá que escolheste para pessoas "mais cheinhas" como nós.
Cheguei ao limite. Tenho de fotografar e pintar... ver se a expressão destes sentimentos levam ao "tone down" do que vou sentindo.
E vamos lá como serão as solteiras e fábrica este ano...
Na Índia de 17 de Setembro a 17 de Dezembro vou procurar-te. Vou ver se alguém por lá já entendeu aquelas maravilhas simples que só tu sabias explicar-me tão bem. Vou ver se consigo aprender profundamente tudo isso para poder partilhar depois. Só queria sentir a tua calma, a tua compaixão, a tua sensibilidade para o ininteligível. Só queria aquele abraço que ia receber em Setembro quando voltei. Só queria ver um jogo do Benfica contigo. Mas não há nada a fazer a não ser viver tudo isto como uma força imensa que faz de mim quem sou. É viver o Cinema paraíso, o finding forester e o Inland Empire na primeira pessoa. Repetem-se as delícias mas não são tão doces como antes. Saudades. Eu sei que sentes saudades disto... já nos tinhas confirmado que o que ia ser difícil era não ter os teus e os amigos, uma pinga boa, uma refeição maravilhosa e um dia típico em Chão de Couce. Mas e as saudades que nós sentimos ainda aqui deste lado... fogo... davam para aquecer os oceanos e levar a humanidade a novos mundos... ainda sobravam forças para fazer do vento levante uma constante, fazer brilhar mais intensamente a Via Láctea, dar a toda a gente um sumo de laranja fresquinho e encontrar ainda mais magia em todas as mulheres do mundo. Estás a descansar como o Derrida. Porque ele disse-te que a elipse não é só a recorrência alterada da imagem mas principalmente aquilo que está desse lado. O Derrida disse que ia finalmente descansar. Tu contaste-me isso no tanque das solteiras enquanto lia uma introdução ao gajo. Agora descansas tu. Mas tens saudades do trabalho que nós todos te davamos.
Um dia emocionaste-te porque te dei um beijo na cara como faço com o meu pai. Hoje sinto que somos todos teus filhos e que se alguma vez acreditei em alguma coisa desse lado foi só numa: em ti."
Caiu-me uma lágrima. Filha da mãe!
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