quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Que dia o meu!

No meu horário escolar está especificado que dou 6 aulas por semana e as outras 8h que estou na escola são para organização da parte burocrática de que tenho que tratar. O que significa que às segundas e quartas feiras não dou aula. Mas como nas últimas semanas há sempre algum professor a faltar, faço eu as substituições.

Tenho dado 10 tempos em vez dos 6 supostos, o que me anda a pôr meio doida. Para já, devo dizer com algum orgulho: sou a professora da minha equipa, que menos queixas tem a nível de comportamento. Não sei se pelo teor das minhas aulas ou se por ser um bocado.. "professora à antiga".

Não, não lhes bato, mas "comigo não fazem farinha" como costumo dizer. Ora, o que isto significa? Como nos tempos que decorrem os pais cada vez menos têm tempo livre para as crianças, ou porque trabalham excessivamente, ou por outra razão qualquer, pouco estão com eles. Resultado: temos crianças cada vez mais bebés, mais irresponsabilizadas pelos seus actos, com menos maturidade e mais putos a sairem impunes pelas asneiras que fazem. Hoje em dia, quando um miúdo leva uma reprimenda de um professor e conta em casa (à maneira que mais lhe convém), o seu querido reprodutor vai à escola refilar com o professor em questão. Em vez de se responsabilizar a criatura pelo mau comportamento que tem, vai-se questionar os modos educativos dos educadores escolares.

Saem sempre bem quando fazem asneira. Isto em crianças dos 6 aos 10 anos. Que monstros serão quando tiverem 15? Depois o problema supostamente é dos paizinhos, mas não, somos todos educadores, e uma criança quando nasce, é fruto de uma sociedade.

Se quando em pequenos espancam um colega e ninguém lhes faz nada, quando tiverem 16 anos e espacarem alguém na rua, ou os próprios pais, irmãos, avós, quem os controla? Depois sobra para quem foi o espancado. E esperam que a polícia e a lei façam milagres. A culpa é de todos, é nossa que os tratamos como atrasados mentais, sem responsabilização alguma quando são menores, e quando crescem e já passam dos 18 anos faz-se o quê, prende-se esses animaizinhos?

Estou a falar dos casos especiais, que são a esmagadora maioria. Os outros educadores que o fazem da forma (que considero) correcta, não estão, obviamente, incluídos neste bolo.

Pois bem, quando me considero uma professora "à antiga" refiro-me a coisas simples como: não os deixo entrar nem correr na sala, têm de ter modos, têm de ser educados, responsabilizo-os pelas suas acções, trato-os como seres humanos com a idade que têm, obrigo-os a serem educados uns com os outros, e quando não o fazem, há consequências.

O meu lema é: "quando me mostrares que és capaz de contribuir construtivamente para o que estamos a fazer, que és responsável, que és respeitador dos outros e do que te rodeia, então terás toda a minha contribuição" ou pela negativa, que às vezes até é mais eficaz: "se não te comportas da forma como te ensino a comportar, também não esperes/exiges de mim o que desejas para ti". E funciona.

Se entro na sala e eles demoram 20m a sentar-se a a fazer silêncio para que eu explique o que vamos fazer, ou se entramos e fazem logo porcaria (bater nos outros, destruir material, ofenderem-se, etc) entra a lei da chantagem. Muito útil :D "O tempo que demorarem a sentar-se a ouvir o que tenho para ensinar hoje é o tempo a mais que ficam na sala depois do toque." Esta usava muito no ano passado, felizmente este ano ainda não achei necessário.

Temos alguns alunos problemáticos na escola. Não tanto por terem vidas complicadas, mas por serem todos desorganizados daquelas cabeças. São crianças inteligentes e conscientes disso, então com um ego excessivamente inchado, acham que são donos e senhores da escola. Tenho alunos que dizem às professoras "você aqui não manda nada, você aqui não é nada, eu não tenho que fazer o que você manda, eu não vou fazer esse trabalho, não me apetece fazer o que você manda" e mais coisas que tais. Ora isto admite-se de um pirralho de 9 anos que ainda cheira a leite?

Santa paciência. Temos cerca de 15 miúdos ao todo nas 4 turmas da escola que repetidamente dão problemas nas aulas. Apenas um deles me dá problemas a mim, e já percebeu que comigo ou tem um comportamento aceitável ou não sai por cima. Os recorrentes são uns 4, e eu apenas tenho queixas de um único miúdo. Os outros até fico estupefacta como é que dão problemas aos outros professores, se nas minhas aulas são exemplares. Ou sou muito boa professora, ou sou muito boa professora, das duas uma :p

Então a táctica para melhorar as aulas dos outros professores, da minha parte, tem sido a que apliquei hoje. O excelentíssimo Bernardo Martins, um miúdo que comigo apenas tive que me zangar uma vez, está sempre na rua das aulas de inglês, música, educação física, apoio ao estudo. Na minha, é um exemplo de aluno! Como é que é possível? Hoje tive uma conversa com ele, apanhei-o fora da sala e confrontei-o com o facto de comigo ser espectacular, mas os outros professores todos fazem queixas dele. Porquê? Porquê este comportamento? Estava possesso comigo, via-se tão bem. Mas há que salientar onde eles são bons e fazer a comparação quando são maus, porque têm essa consciência. Acabei a nossa conversinha dizendo "a seguir vais ter inglês, se tu te portas mal na aula de inglês vamos ter uma conversa os 2, e eu vou perguntar à professora como te comportaste no final". Se os olhos dele cuspissem fogo tinham-me acertado no meio dos olhos! Resultado, portou-se que nem um anjinho.

No final da aula fui a sala do inglês, olhei para ele, olhou-me de lado com um sorrisinho como quem diz "portei-me bem", e a professora confirmou. É ou não é capaz de ser um aluno exemplar nas outras aulas? Óbvio que é! Tenho que fazer o papel de bruxa má todos os dias. Não me chateia, desde que me respeitem, aprendam e mostrem resultados. Já fico feliz.

Nos meus 13 anos de experiência a lidar com estas pestes, posso afirmar que, quando somos rígidos com eles, eles acabam por se sentir na "obrigação" de nos mostrar que são capazes. Isto porquê, como já falei, as famílias estão pouco presentes no dia-a-dia educativo deles, o que faz com que as crianças se sintam desamparadas a nível de regras. E precisam de regras! Faz com que se sintam seguras. Está mais que provado em Psicologia da Educação (cadeira que fiz o ano passado :p). Quando não têm regras na suas vidas, perdem-se, não sabem como agir, não sabem como actuar e só fazem asneira. Quando têm regras a cumprir e que lhes são exigidas, sentem-se mais acompanhados, e sentem segurança. Porquê? Porque têm a noção dos limites que podem e não podem ultrapassar. Isso é muito importante para o crescimento. Vivemos em sociedade, não somos eremitas!

O professor hoje em dia é alguém que ensina as regras sociais, a diferença entre o bem e o mal, o bom senso, "mascarado" de matéria escolar. Cada vez mais é isto que sinto, que o nosso papel como educador é muito mais importante na relação que estabelecemos com eles, na forma como os ensinamos a lidar com os outros na vida, do que propriamente na aprendizagem dos conteúdos.

Devíamo-nos apenas preocupar com os conteúdos e a parte social devia ser um complemento com a educação familiar. Mas agora as falhas são tão grandes que temos que nos virar e transformar aqueles seres em humanos conscientes, responsáveis, com o objectivo de serem uma mais valia na sociedade, em vez de se tornarem mais uns inúteis a juntar-se aos que praí andam.

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